Vitrais do Nordeste do Rio Grande do Sul – tomo I

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    Vitrais do Nordeste do Rio Grande do Sul

    No Nordeste do Rio Grande do Sul

    Os vitrais ou o encontro da cor e luz
    Há toda uma sensibilidade instintiva nos vitrais. Neles há algo da percepção própria da cultura que tem origens medievais, tão voltada para a realidade na imediatez e simplicidade do gosto pela cor e pela luz. Eles lembram uma espécie  de teoria das formas projetando sobre as coisas a existência de uma luz anterior. Os vitrais procuram realizar os princípios da claridade, da penetrabilidade e da incorruptibilidade, pois, da opacidade do vidro, como de uma fonte, jorra o corpo diáfono da luz  que se projeta sobre o silêncio dos objetivos e dos ritos, dando leveza e profundidade aos ambientes serenos ou severos de nossas igrejas.
    Para que serve um vão, uma janela? Para a entrada da luz natural e para a ventilação do ambiente. Vãos e janelas fazem parte do conjunto arquitetônico e, neste sentido, seu estudo oferece uma longa história de estilos e soluções intimamente ligadas às funções arquitetônicas. Determinados locais são próprios ao recolhimento e à meditação e assim o jogo da luminosidade encontra na arte dos vitrais uma maneira de sublinhar e de completar o tom de harmonia e o ritmo das linhas e dos espaços escolhidos.
    Os vitrais são antiquíssimos, mas entre nós poucas vezes mereceram atenção prática e teórica. Somente agora temos um primeiro levantamento, graças ao trabalho da artista e professora Véra Stedile Zattera, Vitrais no nordeste do RS. Trata-se de um estudo singelo, mas de grande interesse cultural e pedagógico. São apresentadas algumas informações históricas, técnicas, sem esquecer que os vitrais trazem uma luz mágica para o interior das igrejas ou casas, e que, às vezes, servem de decoração, e de ilustração, sendo em alguns casos, o único momento de cores vivas nas paredes quase nuas de nossas capelas.
    Os imigrantes tão sóbrios no vestir e na fé cultivavam, quando as possibilidades permitiam, a vivacidade da cor e da luz que projetavam as cenas, os objetos e as personagens dos vitrais. Na realidade, os raios do sol nos elmos, lanças, penachos e em outras cenas bíblicas ou apenas piedosas expressam um significado sempre já dado na concepção alegórica. E a alegoria, como dizia Goethe, transforma o fenômeno em um conceito e o conceito em uma imagem. Por isso, os vitrais podem ser vistos sob o ângulo técnico, da qualidade do vidro, da cor, da altura e da largura das peças, do modo de ligá-las entre si e, enfim, da estrutura que sustenta os painéis, mas o que importa é a sua finalidade concretizada nos desenhos figurativos ou abstratos, no simples jogo de cores, no equilíbrio e proporção das figuras e dos símbolos. Essa íntima relação dos vitrais com a luz solar que permite modificar a luminosidade através de tonalidades uniformes ou realizando adornos e esboços de imagens filtra igualmente, como diz Véra Stedile Zattera, fachos de luz que parecem graças, severidade e tristeza, mas sempre luminosa.
    Jayme Paviani